Lugares (In)Habitáveis: Família, Silêncio e Subjetividade



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 O Não-Dito e o Desejo: Uma Leitura Psicanalítica de Mundos de uma Noite Só

A bola da vez para um ensaio reflexivo é o livro Mundos de uma Noite Só, romance de estreia de Renata Belmonte, lançado pela Faria e Silva Edições em 2020.

O que me chamou a atenção nessa obra multifacetada foram as duas narrativas entrelaçadas: uma situada nos anos 2000, centrada em uma jovem que reflete sobre sua vida e suas complexas relações familiares, e outra, intitulada Uma valsa para o esquecimento, escrita por sua mãe, que narra a história da família paterna desde a década de 1940.

É essa dinâmica familiar que desejo explorar sob o viés psicanalítico, e, claro, sem a pretensão de esgotar o tema. A proposta aqui é refletir sobre esse terreno das famílias quebradas, reconfiguradas e afetivamente densas, que escapam à norma, mas não necessariamente se encaixam em novos modelos. Famílias atravessadas pelo silêncio, pelas ausências, e pelas tentativas, muitas vezes silenciosas, de reconstrução.

Sem mais delongas, vamos ao que pulsa.
O silêncio, nessa trama, não aparece como simples ausência de fala, mas como uma presença marcante. Ele é, em termos subjetivos, quase uma personagem. A narradora é atravessada pelo silêncio da mãe, pelas lacunas da história do pai e pelos segredos que rondam sua origem. Na ausência paterna, o que resta é a versão da mãe, seus escritos, suas dores e também suas ausências emocionais.

A psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui também a partir do que não pôde ser dito, das palavras não escutadas, daquilo que foi calado. O silêncio, nesse caso, funciona como um fio invisível que costura a subjetividade da narradora. Ela não apenas vive entre histórias truncadas, mas se estrutura a partir delas, introjetando afetos não elaborados, repetindo padrões familiares, tentando, ao seu modo, dar forma simbólica ao que lhe foi transmitido sem mediação.

Na dinâmica familiar, esse silêncio que fere a existência da narradora produz um sofrimento que atravessa sua infância, perpassa a adolescência e ecoa na vida adulta. Não se trata apenas da falta de palavras, mas da ausência de escuta, daquilo que não pôde ser simbolizado. Ela cresce imersa em um emaranhado de afetos não nomeados, ressentimentos não elaborados e histórias familiares marcadas por perdas, rupturas e reinvenções.

A função paterna, ausente em sua forma concreta, é substituída por narrativas maternas. E é por meio delas que a figura do pai se torna um mito íntimo, fragmentado, que atua no psiquismo como marca e enigma. O silêncio, nesse contexto, também é herança. Transmitido como um traço transgeracional, ele carrega fantasmas familiares que insistem em retornar. E é justamente na tentativa de escrever, de dar palavras ao não-dito, que a narradora busca alguma forma possível de elaboração. Pelo menos, foi essa a leitura que me atravessou.

Mundos de uma Noite Só nos convida a olhar para dentro das fissuras familiares sem julgamentos apressados. Ao narrar dores, silêncios e vínculos possíveis, Renata Belmonte nos lembra que, mesmo nas histórias mais fragmentadas, há espaço para alguma forma de cuidado, reinvenção e afeto. Famílias quebradas também amam, à sua maneira.
E talvez seja justamente nesse entrelaçamento imperfeito, entre o que falta e o que sobra, entre o que se cala e o que se escreve, que possamos encontrar aquilo que, no fim das contas, sustenta: o desejo de continuar, de dizer, de se reconectar com a própria história. E, quem sabe, fazer dela um lugar habitável.

Dados da obra

  • Editora: Faria e Silva

  • Data da publicação: 12 de março de 2020

  • Edição:

  • Idioma: Português

  • Número de páginas: 200

  • ISBN-10: 6581275069

  • ISBN-13: 978-6581275068

  • Peso do produto: 260 g

  • Idade recomendada: 12 anos e acima

  • Dimensões: 20,8 x 13,8 x 1,6 cm

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A análise apresentada aqui reflete minha leitura e interpretação pessoal do livro Mundos de uma Noite Só.

Érica Silva💓

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