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Camadas do sofrimento: uma leitura psicanalítica de Quarto de Despejo

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  “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome.” — Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo Permita-me começar assim, atento leitor, Confesso: comecei a ler Quarto de Despejo e me senti um pouco perdida. Não pela dificuldade do texto, mas pela quantidade de camadas que ele carrega. A obra de Carolina Maria de Jesus não permite leitura apressada. Eu queria falar sobre pobreza, sobre raça, sobre sofrimento social, sobre o esvaziamento das pautas, sobre como transformamos dor em consumo simbólico… e tudo parecia importante demais para caber em um único eixo. Então decidi não escolher. Decidi organizar a leitura em camadas, como quem escuta, em análise, aquilo que vai se revelando por níveis. Não para explicar Carolina. Mas para sustentar o que ela nos faz ver. Primeira camada: a fome que não é metáfora A fome em Quarto de Despejo não é figura de linguagem. Não é recurso poético. É corpo. É repetição. É humilhação cotidiana. Ela aparece sem enfeite. Crua. E tal...

Um Pai para Lily: Reflexões Psicanalíticas sobre Ausência, Vínculo e Cura

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  Não é o laço de sangue que estrutura o sujeito, mas o laço simbólico que o nomeia e o reconhece. O filme  Um Pai para Lily  (2024) me trouxe várias reflexões, e quis compartilhar uma visão psicanalítica sobre ele. A história de Lily, uma jovem marcada por ausências afetivas profundas, especialmente a ausência do pai, revela como o abandono e a alienação parental podem afetar a construção do sujeito. No filme, ao tentar se reconectar com seu pai biológico pelas redes sociais, Lily acaba encontrando outra pessoa , um homem que não é seu pai de sangue, mas que aos poucos ocupa um lugar de afeto e acolhimento em sua vida. Essa troca inesperada nos convida a pensar que o que realmente estrutura o sujeito não é o laço biológico, mas o laço simbólico, aquele que está ligado à escuta, ao reconhecimento e à presença do Outro. Na psicanálise, sabemos que o abandono não se resume à ausência física, mas pode ser uma presença que nega, que não escuta, que não reconhece. Essa forma d...

O indizível em ato: quando o silêncio do adolescente grita

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     Além do silêncio: o sentido por trás do ato        imagem pixbay  Nem todo silêncio é vazio; às vezes, ele carrega em si um grito que ainda busca ser ouvido e compreendido Falar sobre suicídio na adolescência nunca é simples. É um tema que mexe, que incomoda, que nos confronta com aquilo que muitas vezes preferimos não ver. Mas é justamente por isso que precisamos falar ,ou, pelo menos, tentar escutar o que não está sendo dito. A adolescência é uma fase intensa. O corpo muda, a mente se agita, os sentimentos transbordam. É quando o jovem começa a se perguntar: quem sou eu? o que quero? onde pertenço? Nesse processo, nem sempre ele encontra palavras para expressar o que sente. Às vezes, nem ele mesmo sabe o que está sentindo. E é aí que mora o perigo. Quando o sofrimento não encontra um caminho para se dizer, ele pode virar sintoma. Ou pior: pode virar ato. Um corte, um isolamento, uma tentativa de apagar a dor com o próprio corpo. O suicídio...

Lugares (In)Habitáveis: Família, Silêncio e Subjetividade

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     imagem pixbay  O Não-Dito e o Desejo: Uma Leitura Psicanalítica de Mundos de uma Noite Só A bola da vez para um ensaio reflexivo é o livro Mundos de uma Noite Só , romance de estreia de Renata Belmonte, lançado pela Faria e Silva Edições em 2020. O que me chamou a atenção nessa obra multifacetada foram as duas narrativas entrelaçadas: uma situada nos anos 2000, centrada em uma jovem que reflete sobre sua vida e suas complexas relações familiares, e outra, intitulada Uma valsa para o esquecimento , escrita por sua mãe, que narra a história da família paterna desde a década de 1940. É essa dinâmica familiar que desejo explorar sob o viés psicanalítico, e, claro, sem a pretensão de esgotar o tema. A proposta aqui é refletir sobre esse terreno das famílias quebradas, reconfiguradas e afetivamente densas, que escapam à norma, mas não necessariamente se encaixam em novos modelos. Famílias atravessadas pelo silêncio, pelas ausências, e pelas tentativas, muitas vezes ...

Saúde mental: até quem entende, adoece

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 Nem sempre o sofrimento avisa. Às vezes, ele escapa por onde menos se espera. Foi assim naquela manhã na faculdade: o burburinho nos corredores, os olhares desconfiados, os julgamentos disfarçados de perguntas. Uma aluna de Psicologia havia sofrido um surto, e o espanto se espalhava: “Logo ela?” A partir daquele instante, comecei a refletir sobre o que temos exigido de nós mesmos e dos outros. Sobre como, até mesmo entre os que estudam a mente, o cuidado com a própria saúde mental pode ser negligenciado , não por descuido, mas por esgotamento.             Imagem: Anna Shvets / Pexels Na saída da faculdade, percebi um burburinho. Uma aluna do curso de Psicologia havia sofrido um surto. Entre os alunos de outros cursos, ouviam-se fofocas e julgamentos: "Como uma pessoa que estuda emoções, sentimentos, o psiquismo, tem um surto?" "Por que ela não usou o que aprendeu nesses anos de estudo a seu favor?" Eram muitas perguntas sem respostas. A verdade é...

Vivo ou Morro?

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        Imagem via Pixabay Este é um conto sobre Virgínia, uma adolescente que enfrenta o silêncio das dores invisíveis. A história traz reflexões sobre solidão, julgamento e a urgência da escuta Virgínia está fazendo quinze anos. Em suas fantasias de pré-adolescente, sonhava com um bolo rosa, vestido de tule da mesma cor, fitas de cetim enlaçadas nas costas, cercada por pessoas queridas, amigos dançando a noite toda, drinks, brincadeiras, a festa ideal para uma garota imperfeita. Era assim que ela se enxergava na vida que levava. Sabia que não existiam pessoas perfeitas, mas nada parecia se encaixar para ela. Não conseguia fazer amigos na escola. Sofria bullying por ser quieta demais. Em casa, também não agradava: diziam que era espaçosa, que ocupava todos os lugares com aquele olhar triste, e isso os incomodava. Fora da escola, não conseguia se enturmar. Tinha vergonha da própria existência. O único lugar confortável era o mundo dos sonhos. Mas até ele estava se ...

Holocausto Brasileiro: Vozes de Dor e Resistência

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            Imagem via Pixabay Entre páginas que revelam histórias de dor e resistência, convido você a mergulhar comigo no impactante relato do ‘Holocausto Brasileiro’, uma obra que emociona, ensina e provoca reflexões profundas sobre a humanidade.                                                                   Ai, que medo, alegria e satisfação… Na verdade, um misto de emoções! Nem sei explicar qual é a sensação de escrever uma resenha literária. Gente, que responsa!!! Então, aqui vai: minha primeira resenha será sobre Holocausto Brasileiro . Eu amo ler e escrever, então resolvi juntar as duas paixões e começar a resenhar livros por aqui. Peço desculpas aos acadêmicos e especialistas, mas minha intenção é usar uma linguagem simples, porque quero que adolescentes e adultos tomem go...