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Camadas do sofrimento: uma leitura psicanalítica de Quarto de Despejo

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  “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome.” — Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo Permita-me começar assim, atento leitor, Confesso: comecei a ler Quarto de Despejo e me senti um pouco perdida. Não pela dificuldade do texto, mas pela quantidade de camadas que ele carrega. A obra de Carolina Maria de Jesus não permite leitura apressada. Eu queria falar sobre pobreza, sobre raça, sobre sofrimento social, sobre o esvaziamento das pautas, sobre como transformamos dor em consumo simbólico… e tudo parecia importante demais para caber em um único eixo. Então decidi não escolher. Decidi organizar a leitura em camadas, como quem escuta, em análise, aquilo que vai se revelando por níveis. Não para explicar Carolina. Mas para sustentar o que ela nos faz ver. Primeira camada: a fome que não é metáfora A fome em Quarto de Despejo não é figura de linguagem. Não é recurso poético. É corpo. É repetição. É humilhação cotidiana. Ela aparece sem enfeite. Crua. E tal...