Vivo ou Morro?
Imagem via Pixabay
Este é um conto sobre Virgínia, uma adolescente que enfrenta o silêncio das dores invisíveis. A história traz reflexões sobre solidão, julgamento e a urgência da escuta
Virgínia está fazendo quinze anos. Em suas fantasias de pré-adolescente, sonhava com um bolo rosa, vestido de tule da mesma cor, fitas de cetim enlaçadas nas costas, cercada por pessoas queridas, amigos dançando a noite toda, drinks, brincadeiras, a festa ideal para uma garota imperfeita.
Era assim que ela se enxergava na vida que levava. Sabia que não existiam pessoas perfeitas, mas nada parecia se encaixar para ela.
Não conseguia fazer amigos na escola. Sofria bullying por ser quieta demais. Em casa, também não agradava: diziam que era espaçosa, que ocupava todos os lugares com aquele olhar triste, e isso os incomodava. Fora da escola, não conseguia se enturmar. Tinha vergonha da própria existência. O único lugar confortável era o mundo dos sonhos. Mas até ele estava se tornando enfadonho.
A festa não aconteceu. E, mais uma vez, Virgínia se sentiu invalidada em suas angústias existenciais, cada vez mais latentes. Decidiu procurar ajuda na manhã seguinte.
Achou na internet psicólogos que diziam atender gratuitamente. Tentou contato por e-mail, WhatsApp... e nada. Dois, três dias de espera. Nenhuma resposta. Procurou o centro de especializações de sua cidade, mas não pôde ser atendida por ser menor de idade. Precisaria de um responsável, mas todos os adultos de sua família estavam ocupados demais para lidar com seus problemas emocionais.
Voltando para casa, deparou-se com um aglomerado de pessoas na esquina. Havia policiais, ambulâncias. Curiosa, quis saber o que estava acontecendo. Como uma formiguinha se esquivando dos obstáculos, aproximou-se até alcançar uma distância segura, de onde pôde observar a agitação.
Uma pessoa estava sendo atendida dentro da ambulância. Havia burburinhos sobre uma tentativa de suicídio.
Com o olhar fixo na cena, abriu a boca e perguntou a um homem próximo:
— Senhor, o que aconteceu?
Gentilmente, ele respondeu:
— A Ana, uma moça conhecida aqui do bairro, tentou se matar. Graças a Deus, não conseguiu. Engraçado... ela é uma moça feliz. Nem parecia que faria uma coisa dessas.
Virgínia ficou pasma ao ouvir aquilo. No fundo, também queria entender: por que alguém “feliz” tentaria tirar a própria vida?
As emoções ainda estavam distorcidas no âmago de seu ser. Por fora, ela parecia tranquila. Mas por dentro, era um oceano agitado. Diante daquele instante de julgamentos, pôs-se no lugar de Ana. Foi ali que conheceu a empatia e percebeu o quão cruéis as pessoas podem ser quando julgam o que não compreendem.
Os acontecimentos da manhã a deixaram pensativa. Desistiu de procurar ajuda nos dias seguintes. Passou a refletir sobre tudo o que vivenciara.
Forçando os olhos, mirou uma folha caída no chão, como se estivesse frente a frente com o abismo, sem saber se pulava ou não.
Naquele momento, percebeu que estava se extinguindo dia após dia. E, se continuasse assim, acabaria como Ana: uma pessoa feliz por fora, mas sem vida por dentro.
Os personagens e nomes mencionados neste conto são fictícios e qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.
Texto de autoria de Érica Silva. Todos os direitos reservados.
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